Lésbicas são lésbicas: por que o mês da visibilidade nos convida a pronunciar essa palavra
Agosto é o mês da visibilidade lésbica e o dia 29/08 marca a demonstração pública desse orgulho (19/08) com o Dia da Visibilidade Lésbica. Mais do que celebração, esta data é um manifesto político que convida toda a sociedade a romper com o silêncio. Longe de se restringir à comunidade LGBTIAPN+, o debate propõe um questionamento profundo: por que a estrutura social e econômica ainda tenta silenciar, invisibilizar e violentar existências lésbicas?
Essa configuração de família normativa (heterossexual) serve como base para a exploração pelo capital, renegando outras existências que poderiam ser vistas como uma afronta ao sistema posto. No modelo capitalista, no qual a maior parte da população precisa garantir sua sobrevivência por meio do trabalho, deveria ser evidente que as lésbicas também integram a classe trabalhadora.
No entanto, o preconceito e a discriminação tornam-se barreiras adicionais que se somam a outros fatores de opressão, como classe e raça. Para as trabalhadoras lésbicas, isso se traduz em dificuldades de empregabilidade, entraves na formação profissional, negligência no atendimento à saúde, violências diversas e conflitos familiares. O Dia da Visibilidade busca, portanto, projetar holofotes, direcionar a atenção e informar a sociedade sobre as formas de discriminação. Tão importante quanto isso, a data visa visibilizar existências que são profundamente potentes.
Um ponto fundamental a ser mencionado é a importância da própria palavra “lésbica”. Muitas pessoas recorrem a outras categorias para evitar o termo, utilizando expressões como “gay”, “gay feminina” ou “homossexual feminina” (isso quando o casal não é rotulado de forma reducionista como “amigas” – entre aspas). Lésbicas não são “gays”, nem “amigas”, nem “homossexuais femininas”. Lésbicas são lésbicas.
Que tal dizer essa palavra agora, em voz alta? LÉSBICAS.
Lésbica não é um xingamento, tampouco uma palavra feia. Atualmente, o termo abriga um amplo espectro de identidades. As próprias lésbicas se autoavaliam, criticam e nomeiam. A palavra tornou-se alvo de debates internos muito mais interessantes do que o simples incômodo estético com o termo. Por ter origem na Grécia antiga e aludir à Ilha de Lesbos, o conceito carrega consigo uma visão ocidental e colonialista. No entanto, apesar da crítica, lésbica ainda serve como uma categoria que, por ser histórica e política, convive e abriga várias outras. Então, o movimento mobiliza outras palavras, como “sapatão”, “sapa”, “fancha”, “caminhoneira” e “sandalinha” – mobilizando também imagens simbólicas como do caminhão, do sapato grande, da sapa (animal) entre outros.
Essas nomenclaturas apontam para a grande diversidade de entendimentos e modos distintos de viver que, em meio às diferenças, constituem um grupo, uma unidade de reconhecimento e uma classe de luta. Evidenciam ainda que mantém necessidades e interesses comuns, e coexistem maneiras plurais de expressão dessa identidade sexual.
O senso comum associado à lesbianidade, infelizmente, ainda remete a duas representações estereotipadas: ou duas mulheres extremamente femininas construídas para atender ao desejo masculino, ou alguém de modos “masculinos”. Atrelada a esses estereótipos, projeta-se uma relação direta sobre os papéis sexuais e sociais das lésbicas, como se fossem uma mera reprodução do par heterossexual.
É verdade que existem lésbicas “femininas”. Também é verdade que elas podem formar um casal, e ponto final. Não há nenhuma “falta” nessa relação. A existência de uma figura masculina ou de uma performance de masculinidade não é necessária nem desejada; a sexualidade delas é completa por si mesma. Tampouco é real que essa expressão feminina precise corresponder às expectativas tradicionais de gênero.
Por outro lado, existem aquelas que antes eram chamadas de “lésbicas masculinas” e que hoje se autointitulam “desfem” (desfeminilizadas). Essa mudança linguística nos faz atentar para o fato de que, em uma sociedade padronizada para que mulheres sejam femininas, ser uma lésbica desfem significa estar consciente da rejeição a essa norma, negando cotidianamente a imposição do feminilizar-se. Ao mesmo tempo, essa identidade rejeita a ideia de que a masculinidade é o elemento obrigatório para completar o par de opostos binários.
Pouco importa se já relacionou com homens no passado ou a idade em que reconheceu sua lesbianidade. Também não é impossível que tenha tido alguma relação não lésbica em algum momento da vida. Isso não invalida sua vivência e seu entendimento de si como lésbica.
Deste modo, assim como qualquer expressão identitária, a lesbianidade não é completamente fixa. Além de expressar uma orientação sexual, ela manifesta uma coletividade que tem em comum a independência afetiva e sexual em relação aos homens e, acima de tudo, o ato de amar e valorizar mulheres.
Confira aqui o caderno “Elas por elas”, em que as servidoras e sindicalizadas lésbicas trazem suas próprias narrativas sobre Orgulho, Visibilidade e Pertencimento.
E, se você é lésbica ou GBTIAPN+, venha compor com a gente o GT LGBTIAPN+ SINASEFE.
LINO GABRIEL NASCIMENTO DOS SANTOS
Docente, dirigente sindical e sapatransvyado
Coordenação de Formação Política e Combate às Opressões
GT LGBTIAPN+
SINASEFE Seção Sindical IFSC