Cerca de duas mil pessoas de todas as regiões do Brasil concentraram-se na Universidade Federal de Brasília (UnB), em junho, para participar do II Encontro Nacional de Educação (ENE) e discutir as principais questões ligadas ao projeto educacional brasileiro, hoje alinhado aos imperativos e às necessidades das grandes empresas e dos grandes agentes privados da economia. O debate foi além de temas que estão em voga na área da educação, como o projeto Escola Sem Partido, mas atendeu também a discussões em torno de iniciativas que se somam em níveis municipal, estadual e federal no ataque à educação pública, gratuita, laica e de qualidade.
Sob os preceitos da formação de um projeto classista e democrático de educação e do combate ao ajuste fiscal e ao pagamento de uma inconsequente dívida pública brasileira, os participantes do ENE debateram temas relacionados a financiamento, gestão, avaliação educacional, trabalho e formação dos trabalhadores da educação, acesso e permanência e questões ligadas a gênero, sexualidade, orientação sexual e questões étnicorraciais. Os grupos de trabalho (GTs), em especial, se constituíram em importantes espaços de trocas de experiências e construção coletiva de propostas.
Nestes GTs autogestionados, os debates proporcionaram um aprofundamento sobre as problemáticas e uma rica troca de experiências e vivências, além da certeza de que os efeitos maléficos da falta de democracia e da pseudo participação da comunidade nas decisões e nos projetos de instituições de ensino não são uma característica encontrada apenas no Instituto Federal de Santa Catarina e combatido apenas pelas seções do Sinasefe em suas bases.
O evento, no entanto, apresentou problemas de ordem política, organizativa e de encaminhamento. A forma de funcionamento adotada na mesa de abertura, por exemplo, restringiu as intervenções de base a apenas dez inscrições escolhidas por sorteio. Desta forma, correntes menores ficaram prejudicadas em detrimento de correntes majoritárias e satélites da CSP-Conlutas, que acabaram compondo a mesa e conduzindo as falas.
Ainda, não ficou nítida nem uniforme a metodologia utilizada na sistematização das discussões dos grupos de trabalho. Dessa maneira, certamente houve variações da maneira como os relatores fizeram a inserção dos debates no documento final do evento. Avaliamos que, infelizmente, muitas das questões abordadas e profundamente discutidas nos GTs simplesmente não apareceram na leitura do documento final.
Além disso, a Plenária Final não foi efetivamente uma plenária, pois não se abriu o documento final ou a declaração política para intervenções do público presente. Houve somente a leitura dessas peças pela equipe de coordenação do evento, seguindo-se imediatamente para o encerramento do ENE de 2016.
Por fim, fazemos coro à sugestão realizada em debates do ENE sobre a importância de se resgatar do primeiro ENE – ocorrido no Rio de Janeiro – a metodologia de apresentação e defesa de teses. Esse mecanismo de organização de evento poderá contribuir para a democratização do debate do próprio Encontro e romper com a busca desenfreada das maiores tendências e correntes em manter suas hegemonias.
Destacamos que, apesar de haver pontos a serem aprimorados, o Encontro Nacional de Educação realizado em Brasília possibilitou o amplo debate e a intensa troca de experiências entre todos os dois mil participantes do evento. Um encontro que devido a seu caráter classista despertou a ira de grupos fascistas que, inclusive, organizaram um ataque a parte dos participantes dentro da própria universidade e que, por isso mesmo, mostrou o quão importantes podem ser as discussões em torno de um projeto educacional da classe trabalhadora e qual seu papel na construção de uma outra sociedade.
No IFSC, os ensinamentos do ENE foram apresentados em reuniões sindicais dos câmpus que enviaram representantes ao evento e também subsidiarão novos debates regionais que serão impulsionados pela direção da seção sindical, com a participação de servidores que participaram do Encontro. Espera-se, com isso, destacar a necessidade da construção coletiva de um projeto educacional a partir das bases organizadas dos trabalhadores, com o propósito de transformar tanto o próprio Instituto Federal quanto a própria sociedade em que vivemos e viveremos.
Assinam esta nota:
Alesandra Oriente (JGW)
André Eitti Ogawa (CTE)
Daniel Augustin Pereira (JAR)
Giana Carla Laikovski (JAR)
Lucyana Simal da Costa (JGW)
Marcos Luís Grams (CRI)
Nadja Margotti Mendonça (JGW)